Igreja não é plateia: fomos chamados para servir e anunciar com coragem
Sermão A MACUMBEIRA TÁ PASSANDO MAL
“Igreja não é plateia: fomos chamados para servir e anunciar com coragem”
Texto-base: Marcos 10:45
(apoio: 1Pedro 4:10–11; Atos 4:29; Jonas 3)
1) Introdução — Pelourinho,
Salvador/BA
Irmãos, eu quero começar contando algo que vivi na Bahia.
Cheguei no Pelourinho com minha esposa e minha mãe. E ali,
no meio daquele ambiente cheio de história, música, turismo e também muita
expressão de religiosidade de matriz africana, tinha um senhor de barba branca
pregando veementemente sobre Jonas. E ele corrigia as pessoas: “não é
baleia; é grande peixe”.
Quando ele terminou, eu fiquei com vontade de me aproximar,
talvez cantar algo sobre o tema, concluir com ele… mas ele nem olhou para nós.
Aí ele ligou a caixa de som. E a música que tocou dizia algo
como:
“A macumbeira tá passando mal… com a irmã do coque
pentecostal…”
Eu depois fui pesquisar e achei uma versão parecida, mas com
outra frase no final:
“Porque ela foi mexer com a Igreja Pentecostal!”
Nós não somos de formação pentecostal. Mas aquilo me pegou
por dentro por um motivo específico: a coragem daquele homem. Ele estava
num ambiente que, humanamente falando, poderia ser hostil — e mesmo assim
pregou. E ninguém o interrompeu.
E eu concluí algo que eu quero colocar diante da igreja
hoje:
a coragem para pregar o evangelho não vem do ambiente; vem de dentro — ou
melhor: vem de Deus em nós. Assim foi com aquele homem. Assim foi com Jonas
quando enfim pregou em Nínive. E quem tem medo de falar de Jesus precisa rever
seus conceitos.
Mas eu também aprendi outra coisa naquele mesmo momento:
coragem não é sinônimo de agressividade; ousadia não é licença para
desprezar pessoas. A coragem cristã é firme na verdade e cheia de amor.
E é com essa tensão bíblica que nós vamos caminhar hoje: serviço
na casa do Senhor e coragem para anunciar o Senhor, como Jesus — que
veio para servir, e não para ser servido.
2) A grande verdade do texto
Marcos 10:45 diz:
“Pois o Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”
O centro da vida cristã não é “o que eu ganho da igreja”,
como consumidor espiritual. É: Cristo me ganhou. E porque Cristo me
ganhou, eu vivo para Ele — e isso inclui servir o Seu povo e anunciar
o Seu nome.
Ponto 1 — Jesus é o Servo-Rei:
servir é cristão porque Cristo serviu
Jesus não apenas ensinou serviço. Ele encarnou
serviço.
- Ele se humilhou.
- Ele tocou leprosos, comeu com pecadores, acolheu os quebrados.
- Ele lavou pés.
- E, acima de tudo, Ele serviu “dando a sua vida em resgate”.
Aqui está a raiz reformada da coisa: nosso serviço não
compra nada diante de Deus.
O resgate foi pago por Cristo, completo, suficiente.
Então por que servimos?
Porque o coração salvo quer se parecer com o Salvador.
E aqui entra uma correção pastoral importante, com muito
carinho: você disse que “só existe razão para estar na igreja quando há
possibilidade de servir”. Eu entendo o alvo do que você quer dizer: não
viver como plateia. Amém. Mas a Bíblia nos permite ir ainda mais fundo:
- Há dias em que você vai servir muito.
- E há dias em que você vai chegar como alguém que precisa ser cuidado.
- Há fases em que seu serviço será “mãos na massa”.
- E há fases em que seu serviço será orar, perseverar, encorajar com presença, suportar com fé.
A igreja é casa de Deus e hospital de pecadores. A
razão primeira de estar nela é adorar e estar debaixo dos meios de
graça (Palavra, oração, comunhão, sacramentos). O Catecismo Maior descreve
os privilégios da igreja visível como “gozar… dos meios ordinários de salvação”
no ministério do evangelho.
E, justamente porque estamos nela, servimos — como
fruto.
Ponto 2 — A Igreja é comunhão de
santos: não existe cristianismo sem “mútua edificação”
A Confissão de Westminster diz que os santos são “obrigados”
a manter comunhão no culto e em “outros serviços espirituais” que contribuem
para a mútua edificação, e até a socorrer uns aos outros em necessidades
materiais.
A Confissão Batista de 1689 diz o mesmo: unidos a Cristo,
unidos uns aos outros, somos “obrigados ao cumprimento” de deveres públicos e
privados para o bem mútuo; e essa comunhão se expressa no culto e em serviços
espirituais que edificam.
Ou seja: a igreja não é um teatro. Não é uma plateia.
Não é um “evento”.
É um corpo. E corpo saudável tem circulação: recebe e reparte.
E 1Pedro 4:10–11 nos dá a lógica:
- cada um recebeu dom
- para servir
- para que Deus seja glorificado por Jesus Cristo.
Servir na casa do Senhor é (pelo menos):
- servir com dons espirituais (ensino, exortação, misericórdia, liderança, serviço)
- servir com dons práticos (hospitalidade, ajuda, organização)
- servir com fidelidade simples (pontualidade, cuidado, presença)
- servir com intercessão (há gente que sustenta a obra inteira de joelhos)
E isso nos livra de duas armadilhas:
- A plateia: “vim para receber; ninguém me serve do jeito que eu quero.”
- A vaidade: “vim para ser visto; se não me derem palco, eu sumo.”
Spurgeon tem uma frase linda (em essência): “Se Jesus me
deixar ser porteiro da Sua casa, eu O bendirei por me permitir fazer qualquer
coisa ao Seu serviço.”
Ponto 3 — Coragem para pregar: a
ousadia nasce do evangelho e da presença de Deus
Agora, vamos voltar ao Pelourinho e voltar a Jonas.
(a) Jonas: o profeta medroso
virou pregador numa cidade “hostil”
Jonas correu. Jonas teve medo. Jonas fugiu.
Mas Deus o alcançou, o disciplinou, e o enviou de novo.
E quando Jonas finalmente pregou em Nínive, a mensagem não
era um show. Era simples, direta, e carregada de peso: Deus é santo; o pecado é
sério; o juízo é real; arrependam-se.
Coragem não é ausência de medo — é obediência apesar
do medo.
(b) Os apóstolos: “Senhor,
concede ousadia”
Em Atos 4, a igreja ora: “Senhor… concede aos teus servos
que anunciem com toda ousadia”. E Deus responde.
A coragem cristã é uma obra do Espírito em gente comum.
E Spurgeon, falando a pregadores, diz que no púlpito
precisamos unir dependência e devoção, olhando para Deus por força durante toda
a pregação; e, nessa dependência, pregamos com confiança.
Sermoes_Devocionais_Charles_Had…
(c) Mas coragem não é grosseria:
“verdade em amor”
E aqui eu quero voltar à música e ao ambiente. Você notou a
coragem. Amém.
Mas a pergunta pastoral é: o que a nossa coragem
comunica?
Se a nossa fala “vence” a discussão, mas perde a pessoa, nós não estamos
parecidos com Jesus.
Nós afirmamos, com convicção, que Cristo é o único Salvador.
Nós chamamos todos ao arrependimento. E sim, pregamos em ambiente difícil.
Mas fazemos isso com:
- firmeza
- clareza
- respeito
- compaixão
- e um coração que quer ganhar pessoas, não humilhá-las.
A coragem do evangelho não precisa de deboche para existir.
Ela precisa de Cristo.
Aplicações práticas
- Se você tem sido “plateia”, arrependa-se hoje. Igreja é corpo. E corpo parado adoece.
- Se você tem servido para ser reconhecido, volte à cruz. Servimos porque fomos servidos por Cristo.
- Se você se sente “sem condições” de servir, lembre-se: presença, oração, encorajamento, fidelidade — isso é serviço real.
- Escolha uma área concreta para servir com alegria, debaixo de liderança, com constância.
- Escolha uma pessoa para evangelizar nesta semana. Ore por ousadia. Fale de Cristo com clareza. Convide com amor.
- Peça ao Senhor coragem com mansidão. Coragem sem amor vira barulho; amor sem coragem vira omissão.
Conclusão
No Pelourinho, Deus usou uma cena inesperada para confrontar
você: “Você diz que crê — então por que se cala?”
E hoje o Senhor nos chama a duas marcas inseparáveis de um
cristão saudável:
- serviço na casa do Senhor (porque somos comunhão de santos)
- coragem para anunciar o Senhor (porque o Filho do Homem veio servir e dar a vida)
Que Deus faça de nós uma igreja que não vive de palco, mas
de cruz.
Que não se esconde do mundo, mas também não despreza o mundo.
Que serve, e que anuncia — com ousadia e com lágrimas.
Amém.